terça-feira, 25 de agosto de 2009

Vida de cão


Izolino acabou de receber pelo trabalho de quinze dias. Havia rebocado e assentado piso e azulejo no banheiro do bar do Maranhão. O botequeiro, conhecido sovina do bairro, reclamou, chorou e pagou uma quantia menor que a combinada. Mesmo contrariado, Izolino aceitou e saiu.A caminho de casa, parou na padaria para levar um frango assado e quentinho para sua família.


Enquanto o funcionário da padaria retirava o frango, Izolino observou um cachorro que havia um bom tempo estava parado em frente à máquina de assar. O bicho admirava os frangos a rodar e a se queimar. Olhava tão intensamente que parecia estátua. Apenas a cauda e os pequenos olhos se movimentavam.Izolino pegou alguns restos de carne na bandeja e jogou para o cão, mas este não se interessou. Permaneceu parado. Izolino arrancou uma coxa do seu frango, deu uma mordida impetuosa, com a fome de um lobo siberiano, que um pedaço caiu em seu bolso. Ele pegou de volta e comeu, embora sentisse um cheiro de cimento na carne.


Saciado, Izolino voltou os olhos ao cachorro, cuja língua estava tão esticada quanto uma gravata vermelha. Condoído, jogou o osso da coxa para o animal. Novamente, o vira-lata continuou impassível. “O que este bicho quer? “, pensou. Ao dirigir-se ao caixa da padaria para pagar, Izolino deixou o frango numa cadeirinha do balcão, enquanto procurava a carteira no bolso. Neste instante, o cachorro abocanhou o frango inteiro e correu. Izolino tentou ir atrás. Inútil. E ainda teve de pagar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ETeimosa


Sempre que Vandemílton chegava um pouco mais tarde lá vinha a bronca de Joselma, com sua voz metálica inconfundível.- Saiu com sua amante de novo, é?- O ônibus demorou a passar, justificou o marido.A mulher, como era de esperar, não acreditou e desfiou um rosário de impropérios em cima do companheiro. Joselma dizia que ele sempre tinha uma boa desculpa para justificar sua sem-vergonhice.Vandemílton era metalúrgico, trabalhava numa fábrica de chaves, fechaduras, cadeados, taramelas, trincos, dobradiças e outros dispositivos para prender ou fixar alguma coisa. Apertava parafuso o dia todo. Sofria de uma tendinite eterna na munheca direita. Mas tinha medo de entrar no seguro, ficar bom e não mais encontrar o trabalho na volta. Às vezes o punho doía até mesmo ao levar o garfo à boca.Alguns dias por semana fazia horas extras e chegava tarde da noite em casa. Mesmo assim encontrava Joselma inflexível.- Hora extra, nada. É alguma vagabunda que você encontrou no ponto de ônibus. Esta cidade tá cheia de mulher que quer coisa com homem casado e você ainda...Na verdade, Vandemilton era tão tímido que, se uma mulher lhe desse bola, ele acharia que ela era zarolha e estava olhando para alguém do seu lado. Depois de 13 anos de casado, já estava acostumado aos acessos de Joselma, sua única namorada na vida e aceitava as cenas de ciúme com galhardia. Pouco discutia.Nas noite em que Joselma dormia nervosa, Vandemílton não a procurava na cama, fato que a irritava ainda mais. O ciúme dela aumentou depois que descobriu um telefone de mulher no bolso do uniforme de Vandemílton, na hora de lavar a peça no tanque. Foi uma noite de desaforos e palavrões impublicáveis. Nem Joselma imaginava conhecer vocabulário tão chulo. Nem adiantou Vandemílton provar que aquele telefone era da concessionária de água e a mulher, atendente do serviço ao cliente. Ele tinha ligado para mudar a data de vencimento da conta e deixara o telefone com o nome da funcionária no bolso do macacão.Quanto aos outros atrasos, ele não mentia. Realmente chegava mais tarde por causa do trânsito, do ônibus e por outras adversidades da vida de quem mora na periferia de grandes cidades.Naquela noite, o cobrador e um passageiro brigaram no ônibus por causa de dez centavos. O homem esmurrou o cobrador, provocando rompimento no supercílio. O sangue desceu, fez meleca nas notas da gaveta e o motorista teve de parar na delegacia para lavrar a ocorrência. Vandemílton chegou três horas mais tarde em casa.- Qual a desculpa de hoje, seu à toa.- Fui seqüestrado por um disco voador. Horas depois os ETs descobriram que eu era o homem errado e me deixaram em frente de casa, pelo menos economizei um vale-transporte.- Essa é nova. Foi a vagabunda quem te ensinou? Porque você não conseguiria pensar nessa história sozinho. - Mas é verdade. Posso provar, assegurou Vandemílton e abriu a porta.Um ser estranho, com quatro braços, três pernas, um só olho em cada uma das duas cabeças, gosmento, exalando um gás malcheiroso, alto, magro e de cor indefinível sentou-se no sofá, para espanto de Joselma.- É o meu seqüestrador, apontou o marido.Refeita do susto, Joselma não se deu por vencida. Pôs o pano de prato no nariz e perguntou com voz nasalada.- É macho ou fêmea?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O que é a fofoca


Esta crônica é baseada numa fábula que ouvi certa feita num filme

Talvez tomada pela consciência pesada, a senhora foi até a igreja se confessar.
- Padre. Acho que cometi pecado.
- O que a senhora fez?
- Eu fofoquei para minhas amigas sobre uma pessoa. Baseei-me apenas em suspeitas sem ter certeza absoluta sobre o que contava.
- Não vou perdoá-la, agora. Antes a senhora terá que voltar a sua casa, pegar um travesseiro, subir no telhado e cortar o travesseiro várias vezes com a faca para que todo seu preenchimento saia. Assim ela fez e no
dia seguinte retorna ao confessionário e relata ao padre.
- Pois bem, a senhora volta para sua casa e recolha tudo o que saiu do travesseiro.
- Impossível padre. O vento espalhou todas as penas pela rua e pelos quintais. Não tenho como recuperar.
- Agora eu acho que a senhora entendeu o que é a fofoca.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Na praça


Parei na lanchonete para tomar o café da manhã, antes de chegar ao escritório. Sou daqueles que só sentem fome uma hora depois de acordar. Enquanto punha açúcar no café com leite, reparei que na praça em frente, embaixo da marquise, um mendigo acordava e bocejava.

Sua aparência não colaborava em nada para que alguém pudesse saber seu sexo. Descobri que era mulher depois que ela pegou o espelho e começou a arrumar os cabelos embaraçados. Apesar de tudo, cabelos femininos, longos, esbranquiçados pela idade e sujos pela vida. Seus trejeitos, também de mulher. O impossível era adivinhar quantos anos tinha. Mas certamente ainda conservava o viço pela vida.

Notei seu esforço para deixar os cabelos lisos, pois ficavam enroscados no pente como se os fios estivessem amarrados uns aos outros. Após o penteado, ela pegou o batom e passou nos lábios, lentamente, como um ritual, como algo que a purificaria, que suavizaria a vida bruta que levava nas ruas.

Questionei a mim mesmo. Como é possível uma mulher naquela condição ainda se manter vaidosa? Depois, me penitenciei do preconceito. Por que não? Mesmo dormindo debaixo da marquise, vestindo trapos, comendo restos de comida dos restaurantes, vivendo de favores, perambulando pelas calçadas como peregrina da miséria, ela continuava mulher. É possível que esteja querendo ficar bonita para algum homem. Ou simplesmente satisfazendo o orgulho próprio.

Terminei rapidamente de tomar meu café e subi para o escritório. Da minha sala, olhei para baixo, através da persiana. Ela continuava lá, olhando no espelho e sorrindo para si mesma.

Eu, na minha condição de homem classe média, com curso superior, cartão de crédito, carro novo, assinante de jornal, gravata de shopping, leitor de centenas de livros pela vida, apartamento de três quartos, condomínio pago religiosamente, filhos em escola particular, bem-nutrido, pós graduado e eleitor de partido liberal, não tinha tantos motivos para sorrir. Aquela mulher, no entanto, ria, feliz, mostrando os dentes que ainda lhe restavam, com os cabelos penteados e a boca vermelha de batom.

Fechei a persiana e continuei a trabalhar. Quem sabe amanhã eu também encontre motivos para tornar a vida mais alegre.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Visões sobre o deproma de jornalista


- Vanderlei Luxemburgo. Acabaram co diproma? E Não me avisaram? Quebraram a hierarquia? Pensam que sou barriga de aluguéu? Comigo o diproma não joga mais.

- Muricy: Pô meu, num é isso. O diproma até que joga bem, pô, mas alguém, pô, tem de... Caramba, pô, além do diproma também caiu meu xicrete, pô.

- Dunga: Tenho de manter sempre o mesmo time. Porém, agora com a queda do diploma, ainda não sei quem chamar. Vou consultar o Jorginho.

- Sarney: Nobres senadores, não fui eu quem nomeou o diploma, muito menos quem o demitiu.

- Eduardo Suplicy: Discordo da da queda da do diploma ma, porém concordo do que não precisa de dele pa para ser jornalista...É preciso ter talento para de desempenhar, trabalhar, la labutar, desenvolver, i i im implementar, implantar... o o o otimizar...

- Fernando Gabeira: Acabaram com o diploma? O que isso companheiro? Ainda bem que fiz carreira na política, se continuasse no Jornal do Brasil tava mal.

- Hebe Camargo: Noooossa gente, coitadinho do diploma. Ele não era uma gracinha?

- Fernando Lugo: Não sou pai dele.

- Rubinho Barrichello: Nunca precisei de diploma para ser um vencedor.

- Hugo Chávez: Acabou el diploma? Se eu fosse o Lula, dissolvia o STF e fechava o Congresso.

- Papa Bento 16: Em nome do pai, do filho e do...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Vitória


Um cavalo aproximou-se da égua Vitória, que pastava serenamente do outro lado da cerca, escolhendo os ramos mais verdinhos do capim. Um breve relincho de macho fez com que ela levantasse a cabeça. Ao ver o garanhão, abanou cortesmente sua cauda peluda. Como a porteira entre as duas fazendas estava aberta, o que era raro, Vitória juntou-se ao amigo e saíram ambos trotando calmamente, andaram tanto que até chegaram ao centro da pequena cidade de Beiradinha, cortada pelo Rio Dorminhoco. O rio tem este nome por que suas águas se movimentam lentamente. Diz a lenda local que quem o olha muito sente sono.

Minutos depois, apareceu um funcionário da prefeitura e espantou os bichos. O cavalo correu. Vitória, não. Como estava com um corda no pescoço, foi fácil ao funcionário puxá-la e levá-la ao galpão da prefeitura.

O novo prefeito, ansioso por aumentar a arrecadação do município, para construir uma terceira ponte sobre o Dorminhoco, conseguiu aprovar na câmara uma lei que proibia a circulação de animais no perímetro urbano de Beiradinha. Muitos o aconselharam da impopularidade de tal medida.

Era uma questão cultural, trazida e curtida pelos anos, de que os animais sempre perambularam pelas ruas sem que jamais alguém achasse aquilo estranho. Qualquer bicho ali sempre fora tratado como vaca nas ruas de Nova Déli ou Bombaim, na Índia.

Mas o imposto foi aprovado e estava vigorando. Como bicho não costuma ter dinheiro no bolso, nem o canguru, que tem bolso, o dono do animal seria obrigado a pagar a taxa.

Assim que Dona Branca foi avisada, saiu correndo em direção à prefeitura. Em seu gabinete, o alcaide lhe disse que teria de pagar a taxa para levar Vitória de volta. A fazendeira lembrou que jamais sua égua havia deixado a propriedade.

“Sou uma pessoa responsável, sempre cuidei bem de meus animais e pago certinho todos os impostos. Não é justo pagar para retirar minha égua do galpão municipal”, suplicou Dona Branca. O prefeito insistiu na cobrança.

A senhora entrou no galpão e viu Vitória feliz da vida, balançando a cauda e a cabeça diversas vezes, ao reconhecer a dona. Puxou a égua pela corda e a retirou do depósito. Ao ver a mulher e a égua, já na rua, o prefeito exigiu novamente o pagamento da taxa.

- Não vou pagar coisa alguma. Se for homem, venha me prender. Né, Vitória?

E as duas voltaram felizes para casa.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus"


Pequena crônica cruel da vida, baseada na música Sob medida, de Chico Buarque

Meu amigo, somos produtos do mesmo lixo. Não valemos o grão de feijão que nos alimenta. Só vivemos sob o mesmo teto porque não temos outro e também em razão de que um ainda interessa ao outro. O dia em que acabar esta conveniência é cada um por si.

“Igualzinha a você, eu não presto. Traiçoeira e vulgar, sou sem nome, sem lar, sou aquela. Sou filha da rua, eu sou cria da sua costela. Sou bandida, sou solta na vida e sob medida pros carinhos seus.”

Se outro homem me deseja, porque não ir com ele? E você? Mais mentiroso e cafajeste que parafuso enferrujado. Vagabundo, vira-lata, sem ofício ou vontade, nutre-se de brisa. Mal consegue pagar suas cachaças e seu pif-paf. Mas comigo não tem comida de graça, tampouco roupa lavada. Parecida a você, trabalho não é prioridade na minha vida.

Não sou mulher de um só homem e jamais quis ser a única e exclusiva de nenhum infeliz. Ganho todas de você, só perco nos músculos, pois nasci fêmea e você ...

Vivo com você, também, para ter alguém a quem xingar, humilhar, amaldiçoar. De vez em quando, reconheço, você serve até para aquietar meus desejos de mulher. Mas hoje sua covardia superou minhas previsões mais pessimistas. Por isso, imbecil, abaixe este braço, sente-se à mesa e coma o resto que lhe deixei. “Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus. Você tem o amor que merece.”