quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Escorpião


Otávio Nunes

O escorpião chegou à recepção do hospital dos insetos e assemelhados e solicitou atendimento. Mas tomou um chá de cadeira até ser recebido pelo médico. Na sua frente, ainda esperavam vez a pulga com dor nas pernas, a centopéia com um pé machucado, o vaga-lume que tinha perdido a luminosidade, a taturana com irritação na pele, um louva-deus que sofria sérios problemas de obesidade e que estava quase perdendo a fé e finalmente a abelha diabética. “Esta última deve ser o caso mais complicado, coitada!!”, raciocinou o escorpião.

Depois de horas, enquanto lia a fábula da formiga e da cigarra, o escorpião foi chamado pela joaninha, a recepcionista do médico, que usava vestido preto cheio de bolinhas amarelas. Ele entrou no consultório e foi atendido pelo doutor besouro, que lhe perguntou, mantendo certa distância.
- O que você sente meu caro escorpião?
- Não tenho nenhum problema de saúde doutor, apenas de ordem existencial. Quero que o senhor ampute meu ferrão, pois cansei de causar problemas para os outros.
- Mas, meu amigo, que pedido mais estranho. Isto é o fim da picada.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Se não é, deveria...

Otávio Nunes

Doutor Leonílio estava em campanha política à prefeitura de Beiradinha, uma simpática cidade que tem este nome porque foi fundada nas margens de um rio. É o Rio Dorminhoco, que por sua vez tem este nome porque suas águas fluem lentamente, como se estivessem paradas. Por isso, diz a sabedoria do povo autóctone, que a pessoa que olha muito para as águas do rio fica com sono.

Mas voltemos ao Doutor Leonílio, cirurgião-dentista dos “bão”, capaz de extrair dentes sem anestesia e sem dor. Geralmente, o primeiro caso é o que mais ocorre. Vereador por várias legislaturas, o que lhe abriu a possibilidade de dobrar o tamanho de seu consultório, comprar novos equipamentos e dobrar o preço da consulta, Doutor Léo, como é conhecido, adquiriu a fama de jamais esquecer um nome e usa esta habilidade em sua campanha eleitoral a prefeito.
Lá pelas cinco e meia da tarde, Doutor Léo pára no boteco de Artrides para conversar com alguns eleitores que jogam pif-paf, sinuca e tomam cachaça. Em quinze minutos de papo, Doutor Léo bebeu duas pinga e comeu três coxinhas fritas pela mulher de Artrides doze horas antes, lá pelas cinco da manhã. Artrides abre o boteco às seis da manhã para aproveitar o pessoal que vai pegar o trem.
- Seus salgadinhos são deliciosos Artrides. Quem faz? - pergunta o candidato.
- Minha esposa, dotô – responde o botequeiro.
- Parabéns à sua esposa, a... a Dona Dalva – completou orgulhoso de saber o nome de todos na cidade.
- Não, dotô. Ela não se chama Darva.
- Mas deveria, Artrides. É um nome muito bonito, nome de estrela – disse resoluto Doutor Leonílio. E abocanhou outra coxinha.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Obama, o romano

Otávio Nunes

O mundo respira melhor com Obama. McCain não conseguiu se livrar da pecha de continuador de Bush. A opinião pública mundial esteve sempre com o senador de Illinois, pois viu nele sinais de mudança. Bush desestabilizou o mundo, com suas guerras e sua neurose em imaginar terroristas até debaixo da cama. Se não bastasse o mal que fez ao planeta, nem mesmo seu povo ficou ileso. Ele sai da Casabranca e deixa um país quebrado, sem dinheiro em caixa e gente desempregada. Vai tarde, Bush. Vá plantar ódio em seu rancho do Texas e fique por lá. Você não merece ter foto ao lado de Washington, Jefferson, Lincoln e Roosevelt.
Quanto a Obama, vamos esperar. Assim que a poeira da novidade baixar, teremos idéia melhor sobre ele. A princípio, é bem-vindo. Nossa vida de brasileiro não irá mudar por causa de Obama. Continuaremos a ser um país pobre, atrasado, de baixo índice de alfabetização. Para a América Latina, tampouco haverá melhorias com Obama. Não importa quem seja o inquilino da Casabranca, os Estados Unidos continuarão a ser esta potência imperialista que só enxerga o próprio umbigo. O resto do mundo é periferia deles, só serve mesmo para desova de seus produtos. É a Roma dos tempos modernos. Mas um dia eles irão se deparar com a Grécia deles. Aí então verão que existe civilização mais adiantada. É Obama, você parece ser um grande sujeito, porém não está em suas mãos modificar ou humanizar o imperialismo que seu país exerce sobre o mundo. De qualquer maneira, é melhor você como líder do mundo, que continuar com a política belicista de Bush. Você, Obama, ao menos enseja esperança às pessoas. Vamos dar um voto de confiança a você. Roma também teve imperadores letrados e humanistas, como Adriano e Marco Aurélio, bafejados pela cultura grega. Talvez você se pareça com eles. Porque o Bush, já sabemos, joga no time de Calígula e Nero.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Amor junino

Otávio Nunes

“Com a filha de João, Antonio ia se casar. Mas Pedro fugiu com a noiva, na hora de ir pro altar.” A música invadia todo o quarteirão da rua enfeitada de bandeirolas coloridas. A fogueira ardia, estralava e as pessoas se divertiam naquele bairro, como em todos os meses de junho.

Enquanto comia uma espiga de milho assado e bebia quentão, Calcídio procurava avidamente descobrir o vulto de Glorineide entre as pessoas. Nervoso, sem saber se ela iria aparecer e topar levar adiante o plano traçado havia dois dias, o rapaz chegou até a se engasgar com um pedaço de gengibre do quentão. Cuspiu no chão a bebida e também diversos caroços de milho, até desobstruir a garganta. Minutos depois, enxergou Glorineide.
- E então. Está pronta pra gente ir embora?
- Não sei, Cal. Meu filho está resfriado e nem trouxe ele aqui na festa. Deixei dormindo em casa.

Calcídio insistiu. Disse que aquele era o momento certo. Tinha arrumado um táxi, que os esperava na esquina para levá-los à rodoviária. Até passagem comprada ele guardava no bolso.
- Temos de ir embora agora. Antes que seu marido chegue do trabalho.

Conversou, pediu, clamou, rezou. Até que ela concordou e foi pegar o filho, embrulhado num cobertor, e sua mala de roupas. Os três saíram rumo ao táxi, sem ninguém ver. Todos estavam de olho na fogueira que ardia na escuridão. Duas quadras depois, o pneu do táxi furou.

Enquanto o motorista e Calcídio trocavam o pneu, Glorineide e o garoto tiritavam de frio naquela noite de 29 de junho. De repente, surge o marido de Glorineide, que tinha descido do ônibus havia pouco, e perguntou o que estava acontecendo.
- Oh querido. Nosso filho não está bem e o Calcídio arrumou um táxi pra gente ir ao hospital. Não deu tempo de te esperar. Mas, agora, furou o pneu do carro....
O marido perguntou se tinha comida em casa e ela disse que sim. Agradeceu ao “meu grande amigo Calcídio” pela gentileza de levar o garoto e disse que iria para casa, pois estava cansado e com fome.

Tomou banho, procurou a comida e não encontrou. Então amaldiçoou a mulher. Comeu o pão amanhecido, uma banana e ligou a televisão para esperar por Glorineide e o menino.

Já se passaram outras festas juninas na rua. E ele continua a esperar e a comer bananas.